domingo, 8 de outubro de 2023

DIA MUNDIAL DOS CUIDADOS PALIATIVOS - 8 DE OUTUBRO DE 2023

 

Paliativismo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
(Redirecionado de Cuidados paliativos)

Paliativismo ou cuidados paliativos é o conjunto de práticas de assistência ao paciente incurável que visa oferecer dignidade e diminuição de sofrimento mais comum em pacientes terminais ou em estágio avançado de determinada enfermidade.[1]

Segundo a Organização Mundial da Saúde, em conceito definido em 1990 e atualizado em 2002, os “Cuidados Paliativos consistem na assistência promovida por uma equipe multidisciplinar, que objetiva a melhoria da qualidade de vida do paciente e seus familiares, diante de uma doença que ameace a vida, por meio da prevenção e alívio do sofrimento, por meio de identificação precoce, avaliação impecável e tratamento de dor e demais sintomas físicos, sociais, psicológicos e espirituais”.[2]

E, para isso, é fundamental a atuação de uma equipe interdisciplinar que ofereça além de um trabalho de qualidade com técnica, os cuidados integrais e humanizados para o paciente e toda sua rede de apoio.[3]

Destaca-se que, os Cuidados Paliativos, precisam ser compreendidos como uma política pública e se integrar a todos os níveis de complexidade da saúde, para garantir o direito de oferecer uma assistência integral a todas as pessoas que se encontram fora de possibilidade de cura.[4]

Os cuidados paliativos, baseados nos conceitos da Ortotanásia, se concentram em amenizar os sintomas da doença e dar apoio físico e psicológico ao paciente e à família, integrando diferentes profissionais da área médica, havendo ou não possibilidade de cura. A prática é menos conhecida e utilizada em países subdesenvolvidos.[5][6]

História

O cuidado paliativo se confunde historicamente com o termo hospice, que definia abrigos destinados a receber e cuidar de peregrinos viajantes. O relato mais antigo remonta do século V, quando Fabíola, discípula de São Jerônimo, cuidava de viajantes provindos da Ásia, África e dos países do Leste no Hospício do Porto de Roma.[7] Uma ordem religiosa, no século XIX, os resumiu a locais destinados a moribundos na Irlanda e em Londres.

Alguns pesquisadores relatam que a filosofia paliativista teve o seu início ainda na antiguidade, quando surgiram os primeiros conceitos sobre o cuidar. [8]. Durante a Idade Média, durante o período das Cruzadas, era comum a existência de hospícios em monastérios (no português significa hospedarias). A característica dos hospices era oferecer acolhimento, proteção, alívio do sofrimento, que ia além da busca pela cura. Eles abrigavam além dos famintos, mulheres em trabalhos de parto, pobres, órfãos e leprosos, os doentes e moribundos.[8]

No século XVII, um padre francês chamado São Vicente de Paula fundou a Ordem das Irmãs da Caridade em Paris, no qual inaugurou casas para órfãos, pobres, doentes e moribundos.[8]

No ano de 1900, algumas das Irmãs da Caridade, irlandesas, inauguraram o St. Josephs´s Convent, em Londres. Elas iniciaram com as visitas aos doentes em suas residências. E, após dois anos, em 1902, abriram o St. Joseph 's Hospice com 30 camas.[8]

Fez parte dessa conquista e avanço dos Cuidados Paliativos em todo o mundo, uma mulher nascida na Inglaterra chamada Cicely Saunders. Ela se formou como enfermeira, depois como assistente social e como médico. Além disso, escreveu livros, artigos e guias que são utilizados até hoje, a sua vida foi dedicada ao cuidado e alívio do sofrimento. Em 1967, fundou o primeiro serviço para oferecer o cuidado integral ao paciente, chamado St. Christopher´s.[8] Até nos dias atuais, o St. Christopher´s é considerado como um dos principais serviços no mundo em Cuidados Paliativos e Medicina Paliativa. Ela faleceu em 2005, sendo cuidada no St. Christopher´s.[8]

O paliativismo tem crescido intensamente nos últimos anos. No Reino Unido, nos anos de 2003 e 2004, cerca 250 mil pessoas foram pacientes da prática nos hospices ou em outros locais de atendimento. Hoje, o tratamento é gratuito e sustentado através de caridade, apesar de já ter sido financiado pela National Health Service.

Nos Estados Unidos, o movimento passou de voluntário, melhorando os cuidados a pessoas que morriam sozinhas, isoladas ou em hospitais, para um significante componente do sistema de saúde. Em 2005, mais de 1,2 milhão de pessoas e suas famílias receberam tratamento paliativo. Esse é o único tratamento cujos benefícios do Medicare inclui remédios, equipamento médico e assistência em tempo integral. A maioria dos cuidados é feita na casa do paciente. É também disponível em diversos ambientes como, casas de enfermagemprisões, hospitais. Na década 1970, o encontro de Cicely Saunders com Elisabeth Klüber-Ross, nos Estados Unidos, fez com que o Movimento Hospice também crescesse naquele país.[9] Desde então, tem havido um intenso aumento no número de programas, mais de 1200 atualmente. Aproximadamente, 55% dos hospitais com mais de 100 leitos possuem um programa. Nos hospitais, o funcionamento dos cuidados paliativos pode ser caro. Requer tempo e integração de vários profissionais. Além disso, os pacientes podem não ter seguro adequado ou quantia em dinheiro suficiente para cobrir os custos. Assim, estratégias para financiamento de programas de cuidados paliativos se concentram em cortar custos hospitalares, garantindo renda.[10]

História no Brasil

No Brasil, as primeiras discussões e reflexões sobre a linha paliativista ocorreram desde os anos 70 e, nos anos 90, surgiram os primeiros serviços. O pioneiro foi o professor Marco Túlio de Assis Figueiredo. Ele inaugurou os primeiros cursos e atendimentos com filosofia paliativista na Escola Paulista de Medicina. Além disso, outro serviço que também faz parte da história, é o Instituto Nacional do Câncer, do Ministério da Saúde, que inaugurou em 1998 o hospital Unidade IV, exclusivamente dedicado aos Cuidados Paliativos, porém os iniciar em 1986.[11]

Em 2002, o Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, inaugurou a enfermaria de Cuidados Paliativos. E o programa existe desde 2000. Em 1997, foi fundada a primeira Associação Brasileira de Cuidados Paliativos – ABCP pela psicóloga Ana Georgia de Melo. Em 2005, foi fundada a Academia Nacional de Cuidados Paliativos. A partir dessa institucionalização, houve avanço em relação à regularização dos profissionais e definições de atuação na área. Em 2009, pela primeira vez, o Conselho Federal de Medicina incluiu, em seu novo Código de ética Médica, os Cuidados Paliativos como princípio fundamental.[11]

Princípios dos Cuidados Paliativos

1. Promover o alívio da dor e outros sintomas desagradáveis;

2. Afirmar a vida e considerar a morte como um processo normal da vida;

3. Não acelerar nem adiar a morte;

4. Integrar os aspectos psicológicos e espirituais no cuidado ao paciente;

5. Oferecer um sistema de suporte que possibilite o paciente viver tão ativamente quanto possível, até o momento da sua morte;

6. Oferecer sistema de suporte para auxiliar os familiares durante a doença do paciente e a enfrentar o luto;

7. Abordagem multiprofissional para focar as necessidades dos pacientes e seus familiares, incluindo acompanhamento no luto;

8. Melhorar a qualidade de vida e influenciar positivamente o curso da doença;

9. Deve ser iniciado o mais precocemente possível, juntamente com outras medidas de prolongamento da vida, como a quimioterapia e a radioterapia e incluir todas as investigações necessárias para melhor compreender e controlar situações clínicas estressantes.[12]

Diretrizes para organização dos Cuidados Paliativos no Sistema Único de Saúde

A organização dos cuidados paliativos, segundo a Resolução nº 41, de 31 de outubro de 2018, deverá ter como objetivos:

I - integrar os cuidados paliativos na rede de atenção à saúde;

II - promover a melhoria da qualidade de vida dos pacientes;

III - incentivar o trabalho em equipe multidisciplinar;

IV - fomentar a instituição de disciplinas e conteúdos programáticos de cuidados paliativos no ensino de graduação e especialização dos profissionais de saúde;

V - ofertar educação permanente em cuidados paliativos para os trabalhadores da saúde no SUS;

VI - promover a disseminação de informação sobre os cuidados paliativos na sociedade;

VII - ofertar medicamentos que promovam o controle dos sintomas dos pacientes em cuidados paliativos;

VIII - pugnar pelo desenvolvimento de uma atenção à saúde humanizada, baseada em evidências, com acesso equitativo e custo efetivo, abrangendo toda a linha de cuidado e todos os níveis de atenção, com ênfase na atenção básica, domiciliar e integração com os serviços especializados [13].

E deverão ser ofertados em qualquer ponto da rede de atenção à saúde:

I - Atenção Básica: ordenadora da rede e coordenadora do cuidado, será responsável por acompanhar os usuários com doenças ameaçadoras de vida em seu território, prevalecendo o cuidado longitudinal, ofertado pelas equipes de atenção básica, com a retaguarda dos demais pontos da rede de atenção sempre que necessária;

II - Atenção Domiciliar: as equipes de atenção domiciliar, cuja modalidade será definida a partir da intensidade do cuidado, observando-se o plano terapêutico singular, deverão contribuir para que o domicílio esteja preparado e seja o principal locus de cuidado no período de terminalidade de vida, sempre que desejado e possível. Será indicada para pessoas que necessitarem de cuidados paliativos em situação de restrição ao leito ou ao domicílio, sempre que esta for considerada a oferta de cuidado mais oportuna.

III - Atenção Ambulatorial: deverá ser estruturada para atender as demandas em cuidados paliativos proveniente de outros pontos de atenção da rede;

IV - Urgência e Emergência: os serviços prestarão cuidados no alívio dos sintomas agudizados, focados no conforto e na dignidade da pessoa, de acordo com as melhores práticas e evidências disponíveis; e

V - Atenção Hospitalar: voltada para o controle de sintomas que não sejam passíveis de controle em outro nível de assistência.[13]


O Ministério da Saúde, através da portara 2.439/GM, de 8 de dezembro de 2005, estabeleceu a Política Nacional de Atenção Oncológica, incluindo promoção, prevenção, diagnóstico, tratamento, reabilitação e cuidados paliativos, para implementar em todas as unidades federadas, respeitadas as competências das três esferas de gestão. Ou seja, o serviço em oncologia precisa garantir atenção integral aos pacientes sem a possibilidade de cura, seja por meio do serviço ambulatorial, hospitalar ou domiciliar.[14]

Composição da equipe

Os cuidados paliativos por ser considerado uma abordagem complexa e que tem como finalidade o cuidado integral ao paciente e seus familiares, prioriza uma equipe multiprofissional. Essa equipe é composta por enfermeiro, psicólogo, médico, assistente social, farmacêutico, nutricionista, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, dentista e assistente espiritual.[12]

Fonoaudiologia e Cuidados Paliativos

No dia 2 de setembro de 2021 foi publicada a resolução que dispõe sobre a atuação do fonoaudiólogo em Cuidados Paliativos, no âmbito do Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa).[15]

O fonoaudiólogo visa contribuir na alimentação e comunicação. No que se refere à deglutição, visa contribuir na realização de avaliação clínica e exames, na indicação de estratégias para oferecer alimentação prazerosa e segura sempre que possível, na modificação e adaptação de volumes e consistências alimentares e nas orientações aos profissionais, pacientes e rede de apoio que participam do cuidado. Sobre a comunicação, visa a efetividade e clareza na transmissão da mensagem ao paciente, e entre ele e outras pessoas.[16]

Dia Mundial dos Cuidados Paliativos

O Dia Mundial dos Cuidados Paliativos é um dia de ação para celebrar e apoiar os cuidados paliativos e os cuidados paliativos no mundo. A celebração é retirada no segundo sábado de outubro de cada ano.

A The Worldwide Hospice Palliative Care Alliance (WHPCA) faz parte dessa construção. A WHPCA é uma organização internacional não governamental que atua no desenvolvimento dos Cuidados Paliativos e Hospices no mundo. E, a cada ano, ela ele um tema para a campanha. O tema de 2021 é “Não deixe ninguém para trás – Equidade no acesso aos Cuidados Paliativos“.[17]

Ver também

Referências

  1.  Tempo de envelhecer: percursos e dimensões psicossociais/ organização Ligia Py...[et al.]. - Rio de Janeiro: NAU Editora, 2004.
  2.  WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). National cancer control programmes: policies and managerial guidelines. 2.ed. Geneva: WHO, 2002.
  3.  Moreira, Márcio José da Silva; Guimarães, Michelle Ferreira; Lopes, Leonardo; Moreti, Felipe (31 de julho de 2020). «Contribuições da Fonoaudiologia nos cuidados paliativos e no fim da vida»CoDASISSN 2317-1782doi:10.1590/2317-1782/20202019202. Consultado em 23 de novembro de 2021
  4.  «Os cuidados paliativos como política pública: notas introdutórias». 2015 line feed character character in |titulo= at position 47 (ajuda); |nome1= sem |sobrenome1= em Authors list (ajuda)
  5.  Prática Hospitalar, 2006.[ligação inativa]
  6.  Comunidade virtual de antropologia.
  7.  CORTES, C. C. Historia y desarollo de los cuidados paliativos. In: Marcos G. S. (ed.). Cuidados paliativos e intervención psicossocial em enfermos com cáncer. Las palmas: ICEPS, 1988.
  8. ↑ Ir para:a b c d e f Academia Nacional de Cuidados Paliativos. «História dos Cuidados Paliativos»
  9.  PESSINI, L. Distanásia: até quando investir sem agredir? Bioética, v. 4, p. 31-43, 1996.
  10.  Wikipédia inglesa
  11. ↑ Ir para:a b Academia Nacional de Cuidados Paliativos. «História dos Cuidados Paliativos no Brasil»
  12. ↑ Ir para:a b Manual de Cuidados Paliativos ANCP. Ampliado e atualizado 2ª edição. Academia Nacional de Cuidados Paliativos.
  13. ↑ Ir para:a b Ministério da Saúde. Cuidados Paliativos. Resolução nº 41, de 31 de outubro de 2018. https://www.in.gov.br/materia/-/asset_publisher/Kujrw0TZC2Mb/content/id/51520746/do1-2018-11-23-resolucao-n-41-de-31-de-outubro-de-2018-51520710
  14.  Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Oncológica. nº 2.439, de 08 de dezembro de 2005.
  15.  Conselho Federal de Fonoaudiologia. «Resolução 633 de 2 de setembro de 2021»
  16.  Eckman S, Roe J. «Speech and language therapists in palliative care: what do we have to offer?». Int J Palliat Nurs.: 11(4):179-81
  17.  WHPCA. «World hospice and palliative care day»

Ligações externas

DIA MUNDIAL DAS AVES MIGRATÓRIAS - 8 DE OUTUBRO DE 2023

 

Migração de aves

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
(Redirecionado de Aves migratórias)
Corredores de migração de aves, segundo Thompson D. and Byrkjedal, Shorebirds. Colin Baxter, 2001
Espécime de Ciconia ciconia em voo

As migrações de aves são fenômenos voluntários e intencionais com carácter periódico com o objectivo de encontrar alimento e boas condições meteorológicas.[1] Este comportamento não deve ser confundido com as deslocações ocasionais ou com os movimentos dispersantes.[2]

Os factores que desencadeiam as migrações são pouco conhecidos. Em muitas aves observa-se o aumento das várias hormonas que iniciam o processo pré-migratório onde se pode observar a engorda e o crescimento das gónadas. Essas alterações das concentrações hormonais podem ser induzidas por modificações externas como a variação do número de horas de dia, a escassez de alimentos ou das modificações climatéricas.[3][4]

Durante as migrações algumas aves orientam-se principalmente através da capacidade extraordinária de reconhecer características topográficas, como riosárvores ou características do litoral. Noutras espécies a migração, durante o dia, parece ser orientada principalmente pela posição do sol e durante a noite pelo eixo estrelar de rotação.[5][6] Extraordinariamente ainda existem outras espécies que se orientam principalmente através do campo magnético terrestre (esta capacidade foi comprovada através da desorientação dessas aves quando expostas a campos magnéticos artificiais)[7] ou, então, pela orientação do vento em associação com a paisagem em que se encontram.[8] Quando as condições climatéricas, ou outras, não são favoráveis as aves podem mudar o modo como se orientam. Sabe-se que as aves juvenis ainda não têm o sentido de orientação muito bom, pelo que não é muito raro observar indivíduos juvenis perdidos, enquanto que os indivíduos mais velhos, mesmo quando recolhidos e soltos em outros locais, conseguem orientar-se, mudar a rota e chegar ao sítio certo. Ainda não se sabe muito sobre a orientação das aves, exemplos como o caso de uma pardela que, nos anos cinquenta, foi deslocada da sua toca numa ilha ao largo do País de Gales para ser libertada a quase 5 000 quilómetros do outro lado do Atlântico, perto de Bóston. Em apenas 12 dias regressou para a sua toca, tendo inclusivamente chegado antes da carta que os investigadores tinham enviado para o Reino Unido a avisar da libertação da ave. Para fazer este percurso foi necessário, para além de conhecer o local do seu ninho e a orientação dos pontos cardeais, saber a localização exacta onde estão, mesmo que nunca tenham lá estado; esse mecanismo de localização permanece ainda um mistério.

Para as aves conseguirem finalizar as migrações necessitam, para além do sentido de orientação, de várias estratégias como: voar apenas de noite aproveitando o dia para se alimentar, voar durante o dia para aproveitar as correntes térmicas diminuindo esforço físico, acumular reservas de gordura que permite percorrer grandes percursos sem paragens para se alimentar ou, ainda, como os passeriformes, percorrer pequenas distancias diárias, parando frequentemente para se alimentarem.[9] Além disso, para as aves, é importante que sejam criadas adaptações contra correntes de vento. A influência das correntes de vento nas migrações de aves já é uma questão conhecida há certo tempo pela comunidade científica. Para evitar que a migração seja comprometida, é importante que tais aves desenvolvam mecanismos de adaptação para que contra-correntes não desestabilizem o grupo migratório, ocasionando em alterações da rota de viagem, o que poderia comprometer o sucesso reprodutivo de tais espécies.[10]

Muitas aves nidificam em Portugal durante o tempo mais quente e durante o inverno deslocam-se para o norte de África ou ate à África tropical (também conhecida como África subsaariana), mas também há outras que se deslocam de locais a norte de Portugal e passam o inverno em Portugal.

Em muitas das espécies pode existir uma percentagem de indivíduos que são residentes e outra migradoras, um exemplo é a cegonha-branca (Ciconia ciconia) que possui um comportamento endémico da Costa Vicentina: nidifica em rochedos e falecias litorais.

Muitas aves apenas passam por Portugal. Portugal tem uma localização relativamente periférica, no que toca a migradores terrestres. Mesmo assim, como várias espécies se guiam pela linha de costa, existem locais em que se podem observar grandes números de aves migradoras. As zonas húmidas costeiras são locais particularmente adequados para a observação de aves migradoras, uma vez que estas as utilizam para se alimentarem e repor energias antes de prosseguirem viagem. Pela região da ponta de Sagres passam anualmente alguns milhares de aves migradoras, com destaque para as planadoras, como sejam as aves de rapina ou as cegonhas. Dos cabos podem-se ainda observar as migradoras marinhas.

Dependendo das rotas e do modo como cada espécie aviaria migra, são agrupadas em planadoras, marinhas e passeriformes migradores.

Gansos-de-faces-brancas em migração

Relatos históricos

As técnicas tradicionais de navegação, no Pacífico, para encontrar terras usadas por micronésios e polinésios sugerem que a migração de pássaros foi observada e interpretada por mais de 3 000 anos. Na tradição samoana, por exemplo, Tagaloa enviou sua filha Sina à Terra na forma de um pássaro, Tuli, para encontrar terra seca, a palavra tuli referindo-se especificamente a limícolas de terraplanagem, muitas vezes à tarambola dourada do Pacífico.[11] As migrações de pássaros foram registradas na Europa há pelo menos 3 000 anos pelos escritores da Grécia Antiga HesíodoHomeroHeródoto e AristótelesAristóteles, por exemplo, registrou que os grous viajavam das estepes da Cítia aos pântanos nas cabeceiras do NiloPlínio, o Velho, em sua Historia Natural, repete as observações de Aristóteles. Registro de migração podem ser encontrado na Bíblia, como no Livro de Jó, observa migrações com a pergunta: "É por sua visão que o falcão paira, abre suas asas para o sul?" O autor de Jeremias escreveu: “Até a cegonha nos céus conhece as suas estações, e a rola, o veloz e a garça marcam o tempo de sua chegada”.[12]

Aves migradoras planadoras

Espécime de Pandion haliaetus em voo

Aves planadoras são aves que utilizam essencialmente o voo planado para se deslocarem. Sob esta definição incluem-se os grous, as cegonhas e as aves de rapina diurnas.

O aproveitamento das correntes térmicas (correntes de ar aquecido pela energia solar que sobem graças a diminuição da densidade) permite a estas aves percorrer grandes distâncias com um dispêndio mínimo de energia, mas implica que as migrações ocorram durante o dia. Sobre as grandes massas líquidas a intensidade das correntes térmicas é bastante menor, daí que estas aves evitem fazer grandes deslocações sobre as águas. A dependência das correntes térmicas varia de espécie para espécie e está relacionada com a superfície alar.

As aves que invernam em África têm de atravessar a barreira natural constituída pelo Mar Mediterrâneo. Para as espécies que não dependem das correntes térmicas a migração é, de forma geral, efectuada segundo uma frente ampla e a travessia pode ser feita praticamente a partir de qualquer ponto da costa. São os casos, por exemplo, da Águia-pesqueira (Pandion haliaetus) ou dos tartaranhões Circus sp.. Para as espécies que dependem das correntes térmicas, as poucas centenas de quilómetros que separam a Europa de África podem constituir uma barreira quase intransponível. Assim, estas espécies tendem a concentrar-se em locais estratégicos onde a distância entre os dois continentes é menor. Os dois locais mais importantes são o estreito de Gibraltar, em Espanha, e o estreito do Bósforo, na Turquia. A importância de Sagres começou a ser reconhecida com os primeiros estudos na zona sobre a migração que decorreram na década de 50. Só depois na década de 90 é que os resultados obtidos em vários estudos provaram sem qualquer dúvida que esta região era e é um importante local de passagem para as aves planadoras.

Estas aves têm como preferência habitats em mosaico, bosquesmatagaisculturas de sequeiro, terrenos lavrados, pastagensáreas florestais como as florestas de sobreiro Quercus suber. Utilizam árvores de grande porte, encostas ou penhascos como poiso para refúgio. Existem também espécies associadas a águas pouco profundas. Outras espécies ainda podem frequentar aterros sanitáriosportos, etc.

As aves migradoras estão abrangidas pela protecção legal da convenção de e Berna e pela de Bona e ainda pela Directiva de Aves, mas apesar disso estão ameaçadas por inúmeras situações entre as quais a destruição e degradação dos habitats, a utilização de químicos mortais na agricultura, a redução da disponibilidade de alimentos, a instalação de parques eólicos (incluindo a construção destes), a colisão e electrocussão em linhas aéreas de distribuição e transporte de energia eléctrica, a contaminação das águas, a perturbação humana e o abate ilegal.

Protecção legal

Estas espécies estão sob a protecção legal das transposições da Directiva Aves, da Convenção de Berna e da Convenção de Bona.

Aves migradoras marinhas

Espécime de Alca torda

Aves marinhas são aves que permanecem a maioria, ou a totalidade do tempo nos oceanosilhas ou falésias rochosas.

As aves que vivem apenas nos oceanos são chamadas espécies pelágicas.

A maioria das espécies marinhas migradoras inverna na costa portuguesa e migram para o norte europeu onde nidificam. As outras espécies nidificam apenas no mediterrâneo, e invernam: na costa ibérica, mediterrânica e norte africana. Outras espécies nidificam em zonas transequatoriais e invernam no hemisfério norte.

Existe pouca informação sobre a distribuição na costa portuguesa das espécies de aves marinhas migradoras. Considera-se que algumas espécies podem ser migradoras de passagem e outras, como Alca tordaPuffinus mauretanicusMorus bassanusRissa trydactylaLarus audouiniiLarus melanocephalusLarus minutusCataracta skua e alguns Hydrobatidae, são espécies que existem em grande concentração durante o verão ou são espécies que são observadas durante um período considerável durante o inverno. Não é conhecida a abundância destas espécies ao longo da costa continental portuguesa.

A maioria destas espécies migradoras, mesmo as pelágicas, pode ser encontrada junto a costa. Geralmente nidificam em ilhas e ilhéus isolados, falésias rochosas, cavidades no solo ou em rochas. As espécies pelágicas tendem a ter como áreas de alimentação zonas marinhas pouco conhecidas. O resto das espécies tende a utilizar zonas costeiras, assim como junto de barcos de pesca. As dietas são geralmente constituída por peixescefalópodes e crustáceos.

Protecção legal

Estas espécies estão sob a protecção legal das transposições da Directiva Aves e da Convenção de Berna.

Passeriformes migradores

Os passeriformes são de modo geral aves de pequeno a médio porte terrestres embora possam viver próximo de água. Grupo que inclui a maior diversidade aves e ocupa uma maior diversidade de habitats, este grupo é mais representado no hemisfério norte. Regimes alimentares normalmente insectívorosfrugivorosgranívoros e raramente omnívoros.

Estas aves distribuem-se genericamente por toda a região paleártica. Invernam na sua maioria em Africa e no sul da Europa, sobretudo na Península Ibérica. Em Portugal ocorrem quer no litoral quer no interior do país.

Estas espécies frequentam uma grande variedade de habitats, como montados abertos, matos esparsos com árvores, dunas arborizadas, olivais e mesmo mosaicos de zonas agrícolas e bosques, e ainda existe um grande número de espécies que prefere zonas húmidas.

Protecção legal

Estas espécies estão sob a protecção legal das transposições da Directiva Aves, da Convenção de Berna, da Convenção de Bona e da Convenção de Washington (CITES).

Ameaças das Aves Migradoras

  • A intensificação da agricultura através de monoculturas cerealíferas em detrimento de outros usos.[13][14][15][16]
  • O fogo intenso, pode ter efeitos devastadores sobre as espécies de vertebrados e invertebrados.[13][14][15][16]
  • O aumento da utilização de agro-químicos.[13][14][15][16]
  • O sobre-pastoreio afecta a composição e estrutura da vegetação, reduzindo quer a disponibilidade alimentar quer a protecção para nidificar.[13][14][15][16]
  • A drenagem e destruição de zonas húmidas e caniçais para aproveitamento agrícola e pecuário.[13][14][15][16]
  • A destruição das galerias ripícolas por limpeza desordenada das margens dos ribeiros;[13][14][15][16]
  • A colisão com linhas aéreas de transporte de energia é um importante factor de mortalidade quando aquelas estruturas são colocadas perto das áreas utilizadas pelas espécies ou nas suas rotas de migração;[13][14][15][16]
  • A instalação de parques eólicos em corredores importantes para a migração e dispersão de aves pode constituir um importante factor de mortalidade destas espécies através da colisão nas pás dos aerogeradores. A instalação de parques eólicos é igualmente considerada como uma ameaça importante devido à perturbação provocada quer durante a fase de construção.[13][14][15][16]
  • A poluição marinha (hidrocarbonetos, pequenos plásticos). Nas espécies que passam a maior parte do tempo no mar, o crescente aumento da poluição marinha por hidrocarbonetos e o aparecimento de pequenos plásticos despejados pelas embarcações são factores de ameaça a considerar.[13][14][15][16]
  • A contaminação das águas com efluentes urbanos, industriais e agrícolas.[13][14][15][16]
  • O desconhecimento das ameaças a que as espécies estão sujeitas.[13][14][15][16]
  • O afogamento acidental em artes de pesca (nomeadamente redes de emalhar e espinheis) pode ser grave em algumas zonas onde as espécies ocorrem e a densidade de redes no mar é elevada;[13][14][15][16]
  • A destruição de áreas florestais autóctones maduras, através da elevada frequência de fogos florestais, ou a sua substituição por espécies de rápido crescimento como o eucalipto, resulta na perda de habitat disponível.[13][14][15][16]
  • A perturbação humana provocada por algumas actividades agro-silvicolas, cinegéticas, turismo e lazer, entre outras, que afectam os locais de alimentação e descanso das espécies.[13][14][15][16]
  • O abate ilegal ocorre sobretudo por caçadores furtivos, durante a época de caça;[13][14][15][16]
  • O envenenamento de iscos e carcaças para controlo ilegal de predadores.[13][14][15][16]

Ver também

Referências

  1.  Lack, David (1968). «Bird Migration and Natural Selection»Oikos19 (1): 1–9. ISSN 0030-1299doi:10.2307/3564725
  2.  «migration and dispersal - Wrexham Glyndwr University»www.glyndwr.ac.uk. Consultado em 13 de outubro de 2019
  3.  Wingfield, John C.; Hahn, Thomas P.; Levin, Rachel; Honey, Pulmu (1992). «Environmental predictability and control of gonadal cycles in birds»Journal of Experimental Zoology (em inglês). 261 (2): 214–231. ISSN 1097-010Xdoi:10.1002/jez.1402610212
  4.  Wingfield, J. C.; Schwabl, H.; Mattocks, P. W. (1990). Gwinner, Eberhard, ed. «Endocrine Mechanisms of Migration». Springer Berlin Heidelberg. Bird Migration (em inglês): 232–256. ISBN 9783642745423doi:10.1007/978-3-642-74542-3_16
  5.  Berthold, P. (8 de março de 2013). Orientation in Birds (em inglês). [S.l.]: Birkhäuser. ISBN 9783034872089
  6.  Emlen, Stephen T. (1975). «The Stellar-Orientation System of a Migratory Bird»Scientific American233 (2): 102–111. ISSN 0036-8733
  7.  Wiltschko, Wolfgang; Wiltschko, Roswitha (1988). Johnston, Richard F., ed. «Magnetic Orientation in Birds». Boston, MA: Springer US. Current Ornithology (em inglês): 67–121. ISBN 9781461567875doi:10.1007/978-1-4615-6787-5_2
  8.  Richardson, W. J. (1 de abril de 1990). «Wind and orientation of migrating birds: A review»Experientia (em inglês). 46 (4): 416–425. ISSN 1420-9071doi:10.1007/BF01952175
  9.  Alerstam, Thomas (21 de junho de 2009). «Flight by night or day? Optimal daily timing of bird migration»Journal of Theoretical Biology258 (4): 530–536. ISSN 0022-5193doi:10.1016/j.jtbi.2009.01.020
  10.  Thorup, Kasper; Alerstam, Thomas; Hake, Mikael; Kjellén, Nils (7 de agosto de 2003). «Bird orientation: compensation for wind drift in migrating raptors is age dependent»Proceedings of the Royal Society of London. Series B: Biological Sciences270 (suppl_1): S8–S11. PMC PMC1698035Acessível livremente Verifique |pmc= (ajuda)PMID 12952622doi:10.1098/rsbl.2003.0014
  11.  Richter-Gravier, Raphael (2019). «Manu narratives of Polynesia: a comparative study of birds in 300 traditional Polynesian stories»undefined (em inglês). Consultado em 18 de maio de 2021
  12.  Lincoln, Frederick Charles; U.S. Fish and Wildlife Service; Peterson, Steven R.; Anastasi, Peter A.; Hines, Bob (1979). Migration of birds. Prelinger Library. [S.l.]: Washington : Dept. of the Interior, Fish and Wildlife Service : for sale by the Supt. of Docs., U.S. Govt. Print. Off.
  13. ↑ Ir para:a b c d e f g h i j k l m n o p fichas icn de caracterização dos valores naturais, Passeriformes Migradores de Matos e Bosques
  14. ↑ Ir para:a b c d e f g h i j k l m n o p fichas icn de caracterização dos valores naturais, Aves Marinhas Migradoras
  15. ↑ Ir para:a b c d e f g h i j k l m n o p fichas icn de caracterização dos valores naturais, Passeriformes Migradores de Caniçais e Zonas Ripicolas
  16. ↑ Ir para:a b c d e f g h i j k l m n o p fichas icn de caracterização dos valores naturais, Aves Migradoras Planadoras

Fontes

  • «isa.utl.pt» (PDF)
  • Alerstam, T., and Christie, D. A. (1993) Bird migration, Cambridge Univ Pr.
  • Berthold, P. (1996) Control of bird migration, Springer.
  • Berthold, P. (2001) Bird migration: a general survey, Oxford University Press, USA.

Ligações externas

Ícone de esboçoEste artigo sobre Aves, integrado ao Projeto Aves, é um esboço. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-o.

Etiquetas

Seguidores

Pesquisar neste blogue